terça-feira, 30 de novembro de 2010

ORDEM CHEGOU ÀS FAVELAS DO RIO, MAS O PROGRESSO AINDA NÃO

A ordem chegou. O progresso ainda não. Basta caminhar pelas ruas do Complexo do Alemão, ocupadas pela polícia, para sentir que o governo ainda tem muito a fazer pela comunidade. O desafio do poder público é imenso. O cheiro de carniça pode ser sentido de longe. Resultado da suspensão da coleta de lixo. As tubulações, por onde passa o esgoto, foram estouradas pelos traficantes na tentativa de fuga. Impossível não molhar o tênis na água suja que corre pelas vielas. Sem contar o forte odor de urina no local.
Cuidado. A vistoria feita pelos policiais nos barracos continua. Um casal, que precisou ir para o trabalho e deixar as crianças dormindo, colou um recado na porta: “senhores, podem entrar, mas tomem cuidado com os meus filhos. Eles ainda estão na cama. Obrigado”. O colégio estadual “Jornalista Tim Lopes”, na estrada Itararé, principal via de acesso ao Complexo, segue fechada por tempo indeterminado.
Outras escolas da Penha, zona norte do Rio de Janeiro, voltaram a funcionar normalmente. Às 8h, já se via crianças com mochilas nas costas circulando entre homens fortemente armados.
O comércio do lugar também voltou à ativa. Vendedores de desinfetante em garrafa pet pegaram no batente. E, ao que tudo indica, venderão muito esse tipo de produto. Afinal, depois da guerra, o que o povo mais precisa é de limpeza. Em todos os sentidos. Bar, restaurante, casa de ração, oficina mecânica... Todas as lojas estão à disposição da comunidade, sem acesso ao comércio desde a quinta-feira passada. O carro do carioca, que havia ficado na garagem na semana passada, congestiona as ruas em torno do conjunto de favelas. Chegar à entrada do morro é um verdadeiro teste de paciência.
Revista. Embora a paz tenha voltado a reinar, todo cuidado merece ser tomado. Quem entra e sai da favela passa por uma revista e precisa se identificar. Bolsas e sacolas são vistoriadas. Jornalistas apresentam seus crachás de trabalho. Ninguém passa sem ser notado. O serviço de moto-táxi do Complexo do Alemão, bastante usado pelos moradores, roda normalmente pelos becos. Os pilotos, entretanto, andam sem capacete para facilitar o trabalho das forças de segurança.“Será que, agora, vão conseguir tirar os corruptos da polícia? Se isso acontecer, acredito que a paz continuará na comunidade”, afirmou um morador, que, como muitos, preferiu ter a identidade preservada. “Aqui a gente prefere fechar a boca”, completou.
A energia elétrica, assim como havia acontecido na Vila Cruzeiro, estava cortada na manhã de ontem. Luz? “Vai ser difícil arrumar isso em pouco tempo. Só vamos entrar à vera quando o governo colocar uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) no complexo. Do contrário, ainda teremos medo na hora de subir”, afirmou um funcionário da Light, ao ser perguntado quando a energia seria restabelecida.
Medo. A sensação de medo, embora permaneça, o que é normal, diminuiu consideravelmente. Os famosos bailes funks já começam a ser divulgados na favela. O primeiro lote de ingressos para o show da “Jaula das Gostosudas” e “MC Playboy” pode ser comprado por apenas R$ 5. “Imperdível! Lançamento do videoclipe da ‘Jaula das Gostosudas’. Participação de DJ Rico e Convidados”, dizia uma faixa na entrada principal do Alemão.
Bem perto dali, um cartaz usado durante o ato pela paz estava jogado no chão. A mensagem era curta e bem clara: “No War”. Recado em inglês entendido por todo mundo que acompanhou a guerra no conjunto de favelas. E, agora, o mundo todo sabe que a guerra acabou.
                      
             reportagem: João Paulo Sardinha / postado por Daniel Pereira

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